A construção de gênero em “A Pele que Habito” (2011)

Por Fernanda Lacotix, Laryssa Braga, Lila Rafaela, Mariana Alencar e Mayra Bernardes

[texto com spoiler]

Os debates acerca da sexualidade e do gênero, em maior ou menor intensidade, acontecem em todo o mundo, denunciando desigualdades, reivindicando direitos, problematizando os conceitos de masculino, feminino, heterossexual, homossexual, tradição e contemporaneidade. Assim, em nosso estudo, pretendemos refletir sobre a discussão acerca das questões de gênero e sexualidade com o filme de Pedro Almodóvar, “A Pele que Habito” (La Piel que Habito – Espanha, 2011:120 minutos).

Na filmografia de Almodóvar, grande parte de seus personagens mostra a inadequação do corpo em relação a uma identidade sexual específica, problematizando as categorias que sustentam o binarismo sexual e, consequentemente, a heteronormatividade. Desse modo, o filme “A Pele que Habito” segue trazendo inúmeras questões envolvendo desde conflitos familiares, assassinatos, questões bioéticas, até questões relativas ao gênero, temática muito presente nas discussões atuais em vários campos do saber científico.

Tal película rompe deliberadamente com expectativas relacionadas aos gêneros ao explorar o tema da construção sociocultural dos papéis masculino e feminino por meio de uma transexualidade forçada, que se origina de uma trama de vingança de um pai e cientista. O cirurgião realiza uma transformação completa na aparência física, na voz, e mesmo na personalidade do estuprador de sua filha, transformando-o em uma mulher. Para tanto, o médico o submete a uma cirurgia de transgenitalização (vaginoplastia), além de tratamento hormonal e outros procedimentos médico-biológicos, como o implante de uma pele sintética mais resistente que havia criado.

Nesse sentido, o nosso trabalho visa, num primeiro momento, fazer uma breve apresentação do filme e dos personagens principais para, no segundo momento, discutir como o diretor aborda algumas questões relativas a gênero e sua construção subjetiva, bem como a relação corpo/gênero e transexualidade, com base nos diversos elementos que o filme explora.

Para tanto, iremos abordar a discussão de Judith Butler (2013) acerca das categorias sexo e gênero. Como resume Adriano Senkevics, para a autora, “o conceito de gênero cabe à legitimação de uma ‘ordem compulsória’ que exige a coerência total com o sexo, na medida em que seria um instrumento expresso principalmente pela cultura e pelo discurso que inscreve o sexo e as diferenças sexuais fora do campo do social, isto é, o gênero aprisiona o sexo em uma natureza inalcançável à nossa crítica e desconstrução” (SENKEVICS, 2012).

Nas palavras de Butler, “o gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado (uma concepção jurídica); tem de designar também o aparato mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos’” (2013, p. 25).

Além disso, abordaremos o gênero como categoria de análise das relações sociais através da visada de Joan Scott (1986, p. 21): “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas na diferença percebida entre os sexos e é uma forma primária de dar significado às relações de poder”. Sendo assim, de acordo com Nascimento e Fonseca (2011, p. 70), “é a partir dessa distinção que transforma uma diferença em desigualdade social que a categoria de gênero vai ser apropriada à análise das relações entre os sujeitos”.

Podemos assim afirmar que a transexualidade acontece como resultado de uma profunda necessidade de readequação de uma pessoa ao seu contexto social e ao seu próprio corpo, posto que o sexo biológico inato é diferente do gênero com o qual ela se identifica. Entretanto, não é isso o que vemos no filme em questão: em “A Pele que Habito”, o personagem Vicente não se sente desconfortável com o seu sexo biológico e não procura se transformar em mulher; a transexualidade lhe é imposta. Após a retirada de seu órgão genital, Vicente vai, a partir de um processo de adaptação ao seu novo corpo e ao novo gênero, transformando-se em Vera. Na película, a transexualidade está fortemente ligada ao órgão genital que gera a mudança de comportamento do personagem central do filme e, por isso, interessa observar na narrativa fílmica como se dá a (re)(des)construção de gênero masculino e feminino.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

SCOTT, Joan W. “Gender: A Useful Category of Historical Analysis”. In: The American Historical Review, vol. 91, n. 5, p. 1053-1075, 1986.

SENKEVICS, Adriano. “O conceito de gênero por Judith Butler: a questão da performatividade”, 2012. In: Ensaios de Gênero. Disponível em http://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/05/01/o-conceito-de-genero-por-judith-butler-a-questao-da-performatividade/. Acesso em 11 de novembro de 2014.

NASCIMENTO, M., FONSECA, V. “Da ‘anatomia como destino’ ao ‘cruzamento das fronteiras’: gênero e sexualidade no mundo de Almodóvar”. In: CID: Revista de Ciência da Informação e Documentação, v. 2, n. 2, p. 67-76, 2011.

Imagem de capa: frame do filme de Pedro Almodóvar, “A Pele que Habito” (2011).

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